Usando fornos antigos, En Iwamura constrói sua cerâmica, uma bobina de cada vez

No Japão, diz Iwamura, os estudantes de artesanato se identificam com o conceito de mingei. “As pessoas pensam que o grande artesanato japonês foi feito por artistas desconhecidos. Não são artistas, são mais artesãos”, diz ele. “Então, uma peça artesanal: não precisa falar quem fez ou algo parecido.”

Em contraste com o anonimato associado à cerâmica no Japão, as pessoas nos EUA queriam saber quem era Iwamura através da sua arte. “Então comecei a pensar sobre de onde vim, o que aprendi, o que encontrei e por que estava nos EUA”, diz ele. “Essa foi uma espécie de história que simplesmente coletei sobre por que queria fazer trabalho.”

O processo de Iwamura reflete a história profunda e intercultural da cerâmica. A construção de bobinas, método no qual ele utiliza para fazer suas esculturas, é uma técnica antiga usada em várias partes do mundo. “As pessoas enrolavam bobinas para construir panelas” há milhares de anos, explica Iwamura. “Ainda estou fazendo a mesma coisa. É tradicional.”

Mas as peças acabadas de Iwamura têm uma aparência muito menos tradicional. Ele esculpe cabeças com rostos doces e simples que você pode ver em brinquedos infantis ou em histórias em quadrinhos. Às vezes ele faz figuras completas e arredondadas que podem parecer bonecos de neve ou fantasmas. Outras peças parecem inspirar-se na natureza, parecendo montanhas ou nuvens. Usando camadas de tinta em cores diferentes antes do processo de envidraçamento, Iwamura cria um efeito onde a tonalidade pode parecer mudar dependendo do ponto de vista do observador.

As texturas variadas das peças de Iwamura também são representativas de tradições globais. As linhas, que ele acrescenta após esculpir as formas, fazem referência a tudo, desde potes Jomon a máscaras africanas e artesanato mexicano.

Principalmente quando cria instalações, Iwamura brinca com o conceito japonês de Ma, que descreve como o “espaço negativo” que existe entre as coisas. “Coisas significam não apenas objetos existentes, mas também tempo, espaço e relação entre o público e o próprio objeto”, explica ele na correspondência subsequente.

Depois de quase seis anos nos EUA, além de residências na China e na França, Iwamura retornou ao Japão. Entre 2019 e 2020, foi artista residente no Shigaraki Ceramic Cultural Park. Agora ele trabalha em uma antiga loja de presentes da região, que transformou em ateliê. Iwamura conta que, desde o nascimento do primeiro filho, no ano passado, passa cerca de três dias por semana no estúdio.

É seu filho quem inspirou uma série recente de obras. Iwamura tem feito esculturas empilhadas onde cabeças “aleatórias” são colocadas em corpos. Os componentes variam em forma e detalhes. Um corpo pode parecer um pódio ou uma bock com cantos suaves. As cabeças possuem características faciais diferentes e peculiares, como olhos esbugalhados ou nariz triangular. As peças são empilhadas umas sobre as outras em formas e combinações de cores inesperadas, como uma cabeça alta e laranja colocada em um pequeno corpo azul bebê em forma de tigela.

“Tenho passado muito tempo com ele e ele tem muitos brinquedos. Todos os brinquedos das crianças são coloridos”, diz Iwamura sobre a influência que seu filho de um ano teve nesta série. “Ele vai colocar o copo no animal ou algo assim. São brinquedos diferentes, mas as combinações de cores são lindas e consigo encontrar um bom equilíbrio.”

Devido à ligação histórica de Shigaraki com a cerâmica, ainda existem profissionais locais em quem Iwamura pode confiar

quando ele precisar de ajuda. “Temos transportadores e empacotadores profissionais, pessoas locais, para que possam vir ao meu estúdio”, diz ele, mencionando um local que passa pelo seu estúdio para verificar o que Iwamura precisa enviar. Uma empresa local também mistura o esmalte que Iwamura formulou para suas peças.

SENTI QUE A CERÂMICA PODERIA SER UM A PRÓPRIA LÍNGUA INTERNACIONAL.”

No entanto, um declínio na indústria cerâmica impactou Shigaraki. “Havia muitas fábricas ativas e pessoas trabalhando com cerâmica. Havia mais fábricas. E eram muito ativas”, explica Iwamura. “Hoje em dia ninguém quer continuar o negócio.”

São mais do que empresas que fabricam cerâmica que fecharam, acrescenta. Os negócios relacionados à argila também são afetados. Iwamura diz que esta é uma questão “crítica”, e é por isso que ele quer encorajar os mais jovens – e não apenas os artistas – a se tornarem parte de Shigaraki. “Meu objetivo futuro é ver uma versão mais recente da comunidade de criadores de Shigaraki acontecendo”, observa ele.

Iwamura reconhece que trazer mais pessoas para Shigaraki é uma tarefa difícil. “Quero fazer o que posso”, diz ele. Uma coisa que ele diz que pode fazer é elevar seu perfil como artista como forma de chamar mais atenção para a comunidade. “Quero ser um dos exemplos de artistas independentes”, diz ele. “Para o futuro, quero ver mais jovens se saindo melhor do que eu em Shigaraki.”

Ele também tenta manter seu estúdio o mais acessível possível. “É claro que estou trabalhando sozinho. Não consigo conhecer todas as pessoas que vêm ao meu estúdio”, diz Iwamura. “Se tenho tempo e temos oportunidade, tento ser o mais aberto possível. Tento receber o máximo de convidados possível.”

Quando Iwamura era criança e visitou Shigaraki, diz ele, nunca imaginou que um dia teria um estúdio lá. Agora ele não está apenas fazendo cerâmica na cidade – ele está construindo e moldando uma comunidade, incentivando outros a fazerem o mesmo. Ele diz: “Quero mostrar a possibilidade deste tipo de cidade criativa.”*

Este artigo foi publicado recentemente como capa da edição 71 da Hi-frutose. Obtenha a edição completa impressa aqui.

Credit Post By: Liz Ohanesian

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